
Ele queria acordar um dia, e não ser quem era. Queria saber como é ser de outro modo, fazer as coisas de outro jeito. Como é fazer as escolhas certas. Ele, que sempre renunciou a razão, queria se tornar cético, abominar os sentimentos, repudiar a paixão. Sente que cada dia está mais só. Vê malas invisíveis próximas a porta do apartamento no qual sua alma reside. Representação da vida. Epifania. Choses de la vie. Não há ninguém além dele para ir embora. Sofre. Junta espaços vazios no peito, não chora, sofre à seco a falta de um ser nada humano que o feriu. Sangra, pelo peito, pelos pulsos, pelos olhos. Fuma para não sufocar sua ausência. Prefere o que dói ao que salva. Não ameniza o que o ameaça. Certo de que a dor é sua permanente companhia, ele rejeita analgésicos e vai dormir.
3 comentários:
Lindo, Hudson!
Quem nunca desejou ter escolhido outra vida, não é?
Às vezes parece que a gente não quer se conhecer, que quanto mais a vida se define, mais a gente tem medo dela... medo de ser só um, talvez; de restarem poucas possibilidades, cê acha?
faz bem em recusar analgésicos ;-)
e poxa, adoraria acordar fazendo escolhas certas, rs*
beijocas e boa semana
MM.
Adorei o texto.
Sei como bem o que vc quer dizer com:
"Certo de que a dor é sua permanente companhia" Tem dia que ador é grande.
Bj
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