-Offer Nissim featuring Maya-
Eu sou um poeta medíocre perdido numa sala cheia de papéis velhos, livros lidos e cadernos rabiscados. Correndo atrás de inspiração pra finalizar meu primeiro livro, correndo atrás de dinheiro pra pagar o aluguel desse apartamento caindo aos pedaços na Rua do Lavradio. Eu sou eu mesmo e nada mais. Apaixonado por você, desesperado por você e nada mais.
Você aparece de repente, quando não espero – mas claro que, secretamente desejo que você apareça – mas somente quando perco as esperanças e concentro-me nos meus dias é que você vem.
Causou-me espanto aquele dia. A busca desenfreada pela origem do caos e de todos os medos acumulados. É mal de amor gritam os próximos, que nada entendem da diferença entre simples amor e a dependência química da qual sou vítima. Sua falta é como dor muscular, dói até quando em mexo na cama de manhã procurando o relógio. Só vou curar-me horas depois, já com você ao telefone. E, nos dias mais críticos, com seu dedo tocando a campainha de casa. O coração fica aos pulos e sobressaltos.
Passar um dia inteiro com você é cansativo demais pra minha cabeça. O sentimento urra e a vontade de te fazer sempre meu persiste. E só quando vai embora que me surgem todas as perguntas que queria te fazer.
Estou quase furando o chão do meu quarto dando voltas e voltas. Essa solidão pavorosa, eu olho a cama onde você se atreveu a deixar seu perfume. Eu preciso sair daqui. Há uma festa hoje, aniversário de uma antiga amiga, essa festa há de me fazer bem.
Com um copo de uísque e uma porção de queijo brie, sento numa mesa com velhos conhecidos. Os caminhos do mercado imobiliário, a nova tendência da economia e os investimentos na educação não me despertam nenhum interesse, tampouco os desfechos folhetinescos da novela ou a vida amorosa daquela ex-colega de turma. Você me interessa. Só você.
A aniversariante radiante em seu vestido vermelho desfila pelo salão enquanto seu namorado recepciona os convidados e fotografa a festa.
Você será esse tipo de namorado? Receberá meus convidados e fotografará minha festa?
Ou será sempre o que me deixará sozinho no sábado, enquanto todos os outros casais passeiam de mãos dadas?
Sei que esta condição que estamos imersos é a que mais te agrada, como você consegue viver assim? Valho tão pouco? Minha companhia é assim tão descartável?
E todas essas perguntas dançam na minha cabeça. Saio da festa com a possibilidade de sexo fácil e esquecível. Existe a possibilidade de este sexo ser tão esquecível como a minha pessoa é pra você?
Recuso. Vou para a casa sozinho, nessas horas qualquer companhia atrapalha. Só a solidão e o sofrimento, a saudade e a angústia me farão sentir que estou vivo. Chorar é tão fácil, chorar sem controle e sem ninguém pra ouvir. Ah, é dor demais e nem sei se saberia me sentir de outro modo. Com o tempo, você se acostuma com a dor e ela se torna parte de você, assim o monstro agora é a felicidade, que já esqueci e, portanto, é desconhecida. É a chance de ser feliz que me dá medo.
Procuro o telefone e te ligo, você obviamente não atende, evidente que está pela noite se divertindo enquanto eu choro. Quem pode te culpar por isso?


















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